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Nada é normal quando se está fora do seu próprio meio!

20 Setembro 2008

Eu ia apenas fazer um comentário sobre o maravilhoso tópico da Dé abaixo, mas resolvi incluir minhas impressões no meu próprio post.
Como aceitar que outros seres humanos façam coisas tão bizarras? Simples! Basta ver que também somos bizarros aos olhos dos outros. Como assim você toma banho todos os dias? Que desperdício. Lógico, nos trópicos tudo é mais sujo, é mais quente, as casas sujam mais, tem muita poeira, até o asfalto é mais sujo. Aqui em casa mesmo, deixam restos de comida na pia, que nojo? Não, simplesmente não percebem aquilo, não é nojento para eles, não apodrece, é frio, não existe barata, nunca vi uma formiga aqui! Se vi 5 insetos desde que cheguei foi muito. Nunca abri a janela do meu quarto! Mas como assim? Não circula o ar! Sei lá… é diferente, não sei explicar, nunca suei aqui, não fica cheiro de mofo, não é abafado. E a pontualidade então, aqui sim parece existir relógio, aqui o jogo não é depois da novela, é 21:40 horas e ponto, os ôninbus passam nos exatos horários que marcam as tabelas nos pontos, o show começa as 22:15 exato, sempre exato. Exagero? Não sei, aqui estar 10 minutos atrasado é a maior falta de respeito, já pararam para pensar nisso? Sem falar em respeito em geral, aqui tudo é respeitado, eles dão valor a tudo, a cada centavo. É claro, os suecos sempre começam a trabalhar cedo, antes dos 18 anos, assim juntam dinheiro e vivem, adiam os estudos e viajam por um ano inteiro, sua vaga na universidade estará lá se você quiser, digo isso porque tem gente que não quer, e olha que eles recebem do governo para estudar. Mas alguns preferem só trabalhar, algumas profissões não necessitam ensino superior, o trabalho é valorizado, não importa o que você faça, se é caixa de supermercado ou se é médico, você ganha o suficiente para se sentir incluído na sociedade, você escolhe se quer ir a teatros ou se quer passar o fim de semana em Paris, você trabalhou, então você tem dinheiro. A igualdade social é total. Exemplos práticos: um dos filhos do casal que moro largou os estudos no ensino médio e foi direto trabalhar, ele tem 23 anos e deve abrir seu próprio supermercado logo, por hobby ele tem um carro conversível que custa meio milhão de coroas suecas, não é para se mostrar, ele gosta, ele quis e trabalhou para isso. Já o de 18 anos trabalhou o ano passado todo, ao invés de ir para a faculdade direto pegou o dinheiro e foi para a Austrália passear, sem previsão de volta, essa semana vai para a Nova Zelândia passar 15 dias, ele trabalhava num supermercado também. Acho digno! Como é fácil entender a palavra dignidade aqui.
Agora, como aceitar? Não dá! É nossa cultura, é a cultura deles. O meio, atrelado a infinitas outras questões, forma a cultura de cada um.

Como toda a população tem o mesmo poder de compra, tudo é muito caro! Cada dia perco mais essa noção, você se acostuma a gastar 100 coroas, como gastava 5 reais no Brasil. Tudo bem, a coroa sueca vale bem menos, mas espera aí, 100 coroas sao 25 reais. E 10 coroas então, é uma moedinha minúscula, quase como a nova dourada de 10 centavos do brasil, nem pesa, você gasta duas ou três sem pensar, só que cada uma vale 2,50 reais. Em qualquer balada ou bar é obrigatório “deixar” o casaco na portaria, sempre custa 20 coroas. Mc Donald’s, 60 coroas; de madrugada é mais caro, 5 coroas para cada pedido. Gotemburgo tem em torno de 500 mil habitantes, mas quando vou ao centro me sinto em São Paulo, centenas de lojas, algumas caríssimas, outras acessíveis. Sempre terá alguém que vai comprar, todo mundo tem dinheiro, e assim a economia circula, o dinheiro vai e volta.

Estive um pouco sumido, pois tenho estudado muito. Os exames estão chegando e o conteúdo é sempre muito extenso. O bom é que não é maçante, apesar de cansativo. Aqui o aluno é obrigado a pensar e a opinião sempre conta. Quando tenho um tempo livre eu saio de casa. Ontem fui numa balada com o Bence (da Hungria), o Antti (da Finlândia) e a mulher dele (chinesa). Depois chegaram o Ewan (inglês) e o Johannes (finlandês também). Foi divertido e o Antti se sentiu à vontade para me fazer uma pergunta que ele devia querer fazer faz tempo: Sabia que você não parece brasileiro? Daí fui eu mais uma vez explicar a imigração, a colonização, escravos, mistura de raças. Mas como é a cara do brasileiro? Não existe! Daí falei dos índios, catequização, portuguêses, mas uma vez mistura… As pessoas querem saber mas têm vergonha de incomodar, não me incomodo, adoro falar sobre isso. Mas também falo de política, corrupção, desrespeito e tudo mais que parece estar tão integrado à cultura do brasileiro que já vira normalidade. E ele me disse: “nem imagino o que seja corrupção”. Mas porque temos corrupção, porque existe o jeitinho brasileiro, porque sempre um quer passar a perna nos outros? Sei lá! Será que é porque não existe a cara do brasileiro? Se fossemos todos índios talvez não roubaríamos uns dos outros. Ou vamos mais uma vez colocar a culpa no fato de sermos uma nação tão jovem? Eu tentei, mas ele me disse: Não, a Finlândia tem 100 anos.