Gostei da idéia de pegar o gancho do amiguinho pra fazer outro post, e seguindo na situação colocada pelo Azul em que o amigo pergunta/exclama “Mas você não tem cara de brasileiro?”, essa mesma situação aconteceu diversas vezes comigo nas primeiras semanas de aula, provavelmente porque eu esteja vivendo só com estudantes e convivemos muito mais tempo, eles se sentem mais íntimos para perguntar… mas a questão é o que falar do Brasil?
Assim como o Azul eu adoro explicar todo o ciclo da imigração das diversas pátrias, principalmente durante as guerras mundiais, adoro falar da influência de outros povos em nossa cultura, normalmente exalto a cultura do meu interlocutor, pra ele se sentir familiarizado com o Brasil. Amo falar que em São Paulo tem bairros de nacionalidades diferentes e temos o maior número de japoneses fora do Japão, falo também do sul do Brasil, de cidades que falam alemão e de nossa Oktober Fest, dos italianos, espanhóis, libaneses, turcos e sírios e de como não sabemos diferenciar. Dos mais variados tipos de culinária que conhecemos, e de como temos uma música orginalmente brasileira. Para os africanos falo da influência do Samba, do gingado (normalmente quando tenho que me justificar porque não sei sambar), das comidas e do nordeste brasileiro, e por aí vai. Normalmente eles adoram o modo como convivemos pacificamente com tantas diferenças.
Por outro lado, em meu prédio, tivemos discussões maravilhosas sobre problemas dos países de primeiro mundo versus problemas dos países de terceiro, quarto, quinto mundo… comparando com India, Paquistão e Irã convenhamos que o Brasil tá até que bem, mas quando começamos a falar de educação dá vontade de sentar e chorar. Os países citados, exceto o Brasil, são reconhecidos mundialmente por sua capacidade de produzir tecnologia, por excelentes faculdades e pela formação da população que apesar de pobre, a mão-de-obra barata, é qualificada, o que justifica tantos países do mundo contratarem empresas do oriente médio e índia como prestadoras de serviço… mas nós aqui que, como eles, temos petróleo, temos riquezas naturais, temos agricultura, pecuária… nós temos apenas 13% da população matriculada (não concluinte, apenas matriculada) no ensino superior, sendo que 70% desses matriculados estão em universidades particulares, ou seja, pra um país onde nem o presidente da república estudou (quando falo isso o povo aqui não se conforma) e menos de 4% da população teve sua faculdade paga com os altos impostos que pagamos (note, nada é de graça, pagamos e muito pra ter ensino superior no Brasil)… o que falar do Brasil?
Todos me perguntam de Carnaval… eu conto como funciona, desde a parte folclórica e cultural das escolas de samba até a putaria que rola… eles fcam intrigados e todos sonham um dia em ir pro Brasil no carnaval, acham o máximo a música na rua, as pessoas felizes cantando e dançando… eu fico pensando que provavelmente eles poderão mesmo vir, afinal estão todos estudando num país como a Suécia, e seja lá de onde vieram, chegar aqui com certeza não foi fácil… como acredito na educação como a única forma sustentável de mudança social, acredito sim que eles terão dinheiro suficiente par pagar hotéis no Rio e Janeiro ou em Salvador, enquanto nossa população continuará catando as latinhas de cerveja no chão.
As vezes fico triste de falar mal do Brasil toda hora, prometi que ia parar um pouco de reclamar da ignorância do povo e soltei minha famosa teoria de que podemos analisar um país pelos seus presidentes. Quando comecei a citar exemplos como Estados Unidos/Bush, Brasil/Lula, Evo Morales/Bolívia, Venezuela/Hugo Chaves… até aí tudo bem… mas daí comecei Itália/Berlusconi França/Nicolas Sarkozy, Irã/Governo Islâmico, Inglaterra/Ridícula Família Real e por aí vai… eles ficaram pensativos, e em maioria concordaram…
Falo também de como o povo é amigável, e isso sim tenho orgulho, por aqui os brasileiros fazem o maior sucesso por serem abertos, por estarem sempre felizes, por falarem com todo mundo… falo das praias, e de São Paulo, de como é bom viver numa cidade 24 horas… falo do trânsito e novamente me vejo cair nas críticas ao sistemas de transporte público… pois sempre me perguntam porque eu não ia trabalhar de metro… com isso sou obrigada a falar da política, de superfaturamentos, de como o povo é comprado com programas de falsa inclusão social como o bolsa família, de como se desvia dinheiro e de como a corrupção permeia todos os níveis sociais no Brasil… caio novamente na indignação até que alguém, ou eu mesma, corte o assunto para um gole de cerveja, ou um brinde pra afastar a discussão.
Obviamente falo de futebol… e mesmo amando futebol, faço questão de dizer o quanto o carnaval e o futebol alienam o povo brasileiro… falo da CBF, até no futebol somos capazes de sabotar nosso talento com politicagem… falo de como a copa do mundo paraliza o Brasil e de como é triste quando perdemos… principalmente pra Argentina … Falo que somos os melhores no volei, só pra acabar o assunto.
Mostro fotos em alguns lugares legais no Brasil e eles amam… acham estranho que a maioria dos meus amigos são brancos… daí explico novamente alguns problemas sociais… perguntam os preços de algumas coisas e eu explico que temos dois mercados, o formal e o informal.
Falo que estou aqui porque quero ganhar dinheiro e como dito pelo Azul, não faz muito sentido na cabeça dos europeus que tem enraizado o conceito de classe média… respondo que no Brasil temos duas alternativas, ser pobre ou ser rico… a classe média está cada vez mais rara (que me desculpem os que discordam… mas é esse o espaço pra justificar minha opinião quanto a classe média).
Não acho que a resposa para a pergunta que dá nome a esse post esteja nas linhas acima… mas o que falar do Brasil? Só os problemas? Só as coisas boas? As duas coisas? Serão os problemas muito maiores que as belezas brasileiras? Ou a gente tem coisa boa demais e o que estou falando aqui é só porque a grama do vizinho é sempre mais verde? Será suficiente para as pessoas imaginarem esse país? O que falar do Brasil…
O que você falaria?