Nada é normal quando se está fora do seu próprio meio!

By douglasbs

Eu ia apenas fazer um comentário sobre o maravilhoso tópico da Dé abaixo, mas resolvi incluir minhas impressões no meu próprio post.
Como aceitar que outros seres humanos façam coisas tão bizarras? Simples! Basta ver que também somos bizarros aos olhos dos outros. Como assim você toma banho todos os dias? Que desperdício. Lógico, nos trópicos tudo é mais sujo, é mais quente, as casas sujam mais, tem muita poeira, até o asfalto é mais sujo. Aqui em casa mesmo, deixam restos de comida na pia, que nojo? Não, simplesmente não percebem aquilo, não é nojento para eles, não apodrece, é frio, não existe barata, nunca vi uma formiga aqui! Se vi 5 insetos desde que cheguei foi muito. Nunca abri a janela do meu quarto! Mas como assim? Não circula o ar! Sei lá… é diferente, não sei explicar, nunca suei aqui, não fica cheiro de mofo, não é abafado. E a pontualidade então, aqui sim parece existir relógio, aqui o jogo não é depois da novela, é 21:40 horas e ponto, os ôninbus passam nos exatos horários que marcam as tabelas nos pontos, o show começa as 22:15 exato, sempre exato. Exagero? Não sei, aqui estar 10 minutos atrasado é a maior falta de respeito, já pararam para pensar nisso? Sem falar em respeito em geral, aqui tudo é respeitado, eles dão valor a tudo, a cada centavo. É claro, os suecos sempre começam a trabalhar cedo, antes dos 18 anos, assim juntam dinheiro e vivem, adiam os estudos e viajam por um ano inteiro, sua vaga na universidade estará lá se você quiser, digo isso porque tem gente que não quer, e olha que eles recebem do governo para estudar. Mas alguns preferem só trabalhar, algumas profissões não necessitam ensino superior, o trabalho é valorizado, não importa o que você faça, se é caixa de supermercado ou se é médico, você ganha o suficiente para se sentir incluído na sociedade, você escolhe se quer ir a teatros ou se quer passar o fim de semana em Paris, você trabalhou, então você tem dinheiro. A igualdade social é total. Exemplos práticos: um dos filhos do casal que moro largou os estudos no ensino médio e foi direto trabalhar, ele tem 23 anos e deve abrir seu próprio supermercado logo, por hobby ele tem um carro conversível que custa meio milhão de coroas suecas, não é para se mostrar, ele gosta, ele quis e trabalhou para isso. Já o de 18 anos trabalhou o ano passado todo, ao invés de ir para a faculdade direto pegou o dinheiro e foi para a Austrália passear, sem previsão de volta, essa semana vai para a Nova Zelândia passar 15 dias, ele trabalhava num supermercado também. Acho digno! Como é fácil entender a palavra dignidade aqui.
Agora, como aceitar? Não dá! É nossa cultura, é a cultura deles. O meio, atrelado a infinitas outras questões, forma a cultura de cada um.

Como toda a população tem o mesmo poder de compra, tudo é muito caro! Cada dia perco mais essa noção, você se acostuma a gastar 100 coroas, como gastava 5 reais no Brasil. Tudo bem, a coroa sueca vale bem menos, mas espera aí, 100 coroas sao 25 reais. E 10 coroas então, é uma moedinha minúscula, quase como a nova dourada de 10 centavos do brasil, nem pesa, você gasta duas ou três sem pensar, só que cada uma vale 2,50 reais. Em qualquer balada ou bar é obrigatório “deixar” o casaco na portaria, sempre custa 20 coroas. Mc Donald’s, 60 coroas; de madrugada é mais caro, 5 coroas para cada pedido. Gotemburgo tem em torno de 500 mil habitantes, mas quando vou ao centro me sinto em São Paulo, centenas de lojas, algumas caríssimas, outras acessíveis. Sempre terá alguém que vai comprar, todo mundo tem dinheiro, e assim a economia circula, o dinheiro vai e volta.

Estive um pouco sumido, pois tenho estudado muito. Os exames estão chegando e o conteúdo é sempre muito extenso. O bom é que não é maçante, apesar de cansativo. Aqui o aluno é obrigado a pensar e a opinião sempre conta. Quando tenho um tempo livre eu saio de casa. Ontem fui numa balada com o Bence (da Hungria), o Antti (da Finlândia) e a mulher dele (chinesa). Depois chegaram o Ewan (inglês) e o Johannes (finlandês também). Foi divertido e o Antti se sentiu à vontade para me fazer uma pergunta que ele devia querer fazer faz tempo: Sabia que você não parece brasileiro? Daí fui eu mais uma vez explicar a imigração, a colonização, escravos, mistura de raças. Mas como é a cara do brasileiro? Não existe! Daí falei dos índios, catequização, portuguêses, mas uma vez mistura… As pessoas querem saber mas têm vergonha de incomodar, não me incomodo, adoro falar sobre isso. Mas também falo de política, corrupção, desrespeito e tudo mais que parece estar tão integrado à cultura do brasileiro que já vira normalidade. E ele me disse: “nem imagino o que seja corrupção”. Mas porque temos corrupção, porque existe o jeitinho brasileiro, porque sempre um quer passar a perna nos outros? Sei lá! Será que é porque não existe a cara do brasileiro? Se fossemos todos índios talvez não roubaríamos uns dos outros. Ou vamos mais uma vez colocar a culpa no fato de sermos uma nação tão jovem? Eu tentei, mas ele me disse: Não, a Finlândia tem 100 anos.

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4 Respostas para “Nada é normal quando se está fora do seu próprio meio!”

  1. Beethoven Diz:

    eu acho que a corrupção, o passar a perna, existem quando as diferenças são mais gritantes… quando uns têm muito e outros têm muito menos… então rola inveja… ambição… e tudo o que vem depois disso…
    em lugares como a suécia, onde todos tem tudo igual como vc disse, oportunidades iguais, não faz sentido existir corrupção, pois todo mundo pode conseguir o que quer corretamente… sem se desviar.

    mas existe também muita corrupção que a gente não vê… os países que realizam estudos com reatores nucleares precisam respeitar uma legislação rígida para descartar os resíduos radioativos, e esse processo é caríssimo, então empresas gigantescas com selo de qualidade e sustentabilidade – de países como noruega, alemanha, frança – “exportam” esses resíduos para países africanos… os africanos aceitam em troca de dinheiro. e depois não sabem o que fazer com o material e simplesmente enterram a 2m, 3m de profundidade. existem estudos recentes sobre a quantidade de crianças que nascem com deformações, as doenças causadas pela água e por aí vai…

    os europeus se livram de um incomodo, mas tem mais conhecimento sobre o assunto… os africanos miseráveis aceitam tudo e qualquer coisa em troca de dinheiro. como julgar quem está errado? corrupção, existe em todos os lugares… em alguns mais explicitamente, em outros nem tanto.

  2. Azul Diz:

    Foi o que a Dé me disse uma vez: Os europeus já destruíram todas as florestas deles, porque agora querem que a gente preserve a Amazônia?
    Pode parecer ridículo, mas faz sentido.
    Já a Africa que recebe os resíduos em troca de dinheiro, será que a população que nasce deformada vê esse dinheiro? Ou ele fica nas mansões dos governantes corruptos?

  3. deboradg Diz:

    O ser humano não existe sem diferenças, é a essência de nossa existencia, a vontade de algo mais e a certeza de alguém com algo menos… cruel porém real.

    Acho que tudo e todos te seus preço… os suecos cobram mais caro… porque não precisam do dinheiro, porém os do Sul-Pobre são bem mais baratos …

    Quando falo pras pessoas aqui que eles deviam PAGAR pra eu aprender sueco elas ficam um pouco assustadas, afinal porque eu quero aprender uma lingua que apenas 9 milhoes de pessoas falam? Mas é isso mesmo… eles não são bonzinhos de abrir as universidades pra estrangeiros… eles estão apenas comprando nosso conhecimento e nosso potencial… investindo em relacionamento com outros países, e abrindo portar para futuros negócios da forma mais barata e mais eficaz, EDUCAÇÃO!

    Porque será que não tem ingleses aqui? Porque provavelmente eles não precisam sair de seu próprio país em busca de estudo, em busca de algo melhor… eles são mais caros do que a Suécia pode pagar… já nós…

  4. Azul Diz:

    Conheço pelo menos 3 ingleses aqui! Um é meu amigo, da minha sala.

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